HISTÓRIA SOCIAL
DO LIVRO E DA
LEITURA
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SUMÁRIO
Módulo I - História da leitura na Antiguidade Greco-Romana.
1- História da leitura na antiguidade Grega
2- A História da leitura na Roma Antiga
3- A História da leitura na Idade Média
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Módulo II. História da leitura a partir idade moderna: entre o isolamento, práticas leitoras
coletivas e política.
Apresentação:
A leitura como toda atividade humana tem a sua história, pois não lemos da mesma
maneira que os gregos antigos liam que desenrolavam os seus volumen, livro em rolo, e liam em
voz alta o que estava registrado no texto, somente assim que eles conseguiam entender o que estava
escrito. A leitura silenciosamente como fazemos em casa ou nos meios de transporte urbanos era
uma habilidade, em certo momento da história, somente realizada por um seleto grupo de pessoas
que dominavam esse tipo de leitura.
Rastrear os diversos tipos de leitura na história humana é uma forma de compreender a
importância dessa habilidade de comunicação para formação das sociedades e das culturais. Nas
mudanças de práticas leitoras e das posturas diante dos textos podemos compreender os jogos de
poder envolvidos entre os que produziam os textos, os que distribuíam e os leitores. Na história
encontramos muitos leitores e escritores que foram perseguidos, presos e executados pela Igreja,
por monarcas tiranos, por ditaduras, como na Alemanha nazista e ditadura militar brasileira de
1964-1985 e outros sistemas políticos semelhantes.
Desta maneira esse material consiste num panorama das grandes transformações que o ato
da leitura sofreu desde a Grécia antiga até o período contemporâneo. Temos o objetivo de provocar
reflexões criticas sobre o ato da leitura e seu caráter mutante e, acima de tudo, como muitas vezes,
as formas de ler são controladas e ditadas por certos grupos com a intenção de excluir elementos
contestadores da ordem vigente. O leitor muitas vezes se torna um grande questionador da ordem e
do modelo de vida padrão, pois este leitor quer ver o que está por trás de uma frase, o que esta nas
entrelinhas de um texto e esses mesmos atos são feitos para vida social, assim nascem os leitores
contestadores da sociedade.
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Devemos apontar como um outro objetivo desse estudo é apresentar a possibilidade de se
criar novos práticas leitoras a partir dos modelos usados no passado, como por exemplo, a leitura
em voz e coletiva, no inicio da Idade Moderna, na qual um conjunto de leitores compartilhavam o
mesmo texto e apresentavam a suas interpretações e opiniões, pode servir como exemplo para a
criação de práticas leitoras coletivas para os dias de hoje, quando as práticas de recepção de bens
culturais tem um perfil muito mais individualista. Nesse exemplo, podemos trabalhar com a questão
do prazer pela leitura e com o prazer de compartilhar experiências e histórias com outras pessoas.
Na apostila sobre oficina de leitura temos reflexões sobre essas práticas.
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SUMÁRIO
Módulo I - História da leitura na Antiguidade Greco-Romana.
1- História da leitura na antiguidade Grega
2- A História da leitura na Roma Antiga
3- A História da leitura na Idade Média
Módulo II - História da leitura a partir da idade moderna: entre o isolamento, práticas leitoras
coletivas e política.
1- Praticas leitoras na Idade Moderna
2- Leitura na Idade Contemporânea
3- Leitura, analfabetismo e exclusão social no Brasil.
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Módulo I - História da leitura na Antiguidade Greco-Romana e na Idade Média
1- História da leitura na antiguidade Grega
A história da leitura da antiguidade Grega é marcada, segundo os estudos de historiadores
da leitura como Roger Chartier e Gugliemo Cavallo, pela oposição entre sistema de comunicação
oral e escrito. As oposições também estão no próprio interior do sistema oral que assumiu formas
diversas, no que se refere a um discurso simplesmente falado e que se refere de uma reconstituição
oral do discurso escrito através de um indivíduo-leitor. Desta maneira, o discurso falado,
considerado o mais verdadeiro e o mais importante para o processo de conhecimento, tem o poder
de escolher quem era digo de receber tão informação, e assim é possível, observar suas reações,
esclarecer suas perguntas, responder a seus ataques. Por outro lado, o discurso escrito, é
considerado como uma pintura, caso seja feita uma pergunta, ele não consegue responder e ainda
fica repetindo o mesmo conteúdo. Difundindo por um suporte material inerte, o escrito não sabe
onde encontrar a pessoa que terá a capacidade de compreendê-lo e nem consegue evitar aqueles que
não tem a competência para entendê-lo.
Então a escrita é colocada a serviço da cultura oral com a finalidade de contribuir para a
produção do som, de palavras eficazes, da glória retundante dos heróis. Essa função diz respeito a
composição escrita na fase da “publicação oral”da produção textual grega; diz respeito à literatura
épica e de forma mais geral as obras em verso e as inscrições mais curtas que eram pintadas dos
objetos. Entretanto, o livro e a leitura e principalmente o livro tinha a função de conservar o texto.
Na Grécia antiga tinha-se a consciência de que a escrita foi criada para fixar os textos e trazê-los de
volta para a memória. Essa necessidade de conservar os textos explica as descobertas de livros em
buscas arqueológicas nos antigos templos gregos.
No final do século V a.C que os pesquisadores identificaram o período em que surgem
limites entre o livro destinado quase exclusivamente à fixação do texto e livro feita para a leitura.
Através de ilustrações áticas em vasos, nesse período, apresentam livros sendo lidos como textos
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escolares, isso indica o uso de livros com finalidade educativa. Também surge cenas de leitura nos
objetos nas quais figuras de homens lendo seguidas de figuras femininas, em menor numero,
também lendo. A partir dessas representações é possível entender que as leituras não eram
solitárias, pois os leitores pareciam está em situações de entretenimento e conversão, ou seja, a
leitura fazia parte da vida social. A leitura solitária era mais rara, as representações em imagens ou
mesmo relatos em livros eram muito poucos.
A leitura em voz alta, como em toda antiguidade, era a mais praticada, pois existia a
necessidade de tornar compreensível ao leitor o sentido de um scriptio continua tipo de escrita sem
espaço entre as palavras que, segundo os estudiosos, seria de impossível compreensão sem a leitura
em voz alta.
Porém, existiam alguns poucos registros da leitura silenciosa do livro que através de
trechos de obras famosas como no caso da confissão de Dionísio em As rãs, de Aristófanes, que
afirmou, “na solidão quero ler este livro para mim mesmo”. Aqui essa expressão “para mim
mesmo” se remete a uma leitura totalmente individual, silenciosa e interiorizada e assim, dirigida
para si mesma.
Essas pesquisas sobre as praticas leitoras da Grécia antiga apontam que houve entre os V e
IV a.C uma mudança de uma prática da leitura que era feita pela “distribuição de texto”, realizada
pelos poucos letrados para os iletrados, para uma leitura mais difundia, tida como
“reconhecimento”direto das letras num dado nível. É nesse período que surge um tipo de leitura que
percorre atentamente todo o texto e assim é estabelecida a oposição entre ler superficialmente e ler
todo texto com muita atenção.
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Todo esse conjunto de transformações das práticas leitoras no mundo grego antigo
representa que, mesmo existindo a permanência da transmissão oral dos textos, o livro passa a ter, a
partir do século IV a.C. um papel fundamental nessa cultural. Assim toda a literatura depende da
escrita e do livro que permite tanto a composição das obras, sua distribuição e conservação. É nesse
período que é criada a filologia Alexandria, inteiramente destinada, em coletar , transcrever e
comentar os texto e os transformar em livros. É essa filologia Alexandria que estabelece o conceito
de que uma obra só existe se for escrita, ou seja, a obra é um texto que permite a sua apropriação
graça ao livro que o conserva.
A famosa biblioteca de Alexandria representa toda essa preocupação com a escrita e com
o livro. A biblioteca de Alexandria passou a ser o arquétipo da biblioteca grega e, ao mesmo tempo,
foi construída numa base universal, porque conseguia reunir obras de todo o mundo conhecido e
completamente racional, devido a ordenação em que os livros eram submetidos, de acordo com um
sistema de classificação. A partir dessa finalidade de ordenação que os textos passaram por uma
padronização em sua estrutura, pois os textos antigos e novos receberam uma estruturação em
volumem (rolo). Desta maneira, cada obra particular passa a ser um rolo. As grandes bibliotecas do
mundo helênico, como a de Alexandria, não eram espaços de leitura, mas sim grandiosos depósitos
de livros, espaço de coletânea de livros das escolas de filosofia e de ciências. Além dessas grandes
bibliotecas, existiam várias bibliotecas na Grécia helenística.
Nesse período da história Grega, houve a ampliação da leitura. Além, os círculos de
profissionais eruditos, o novo papel assumido ao objeto livro, ligado a uma espécie de alucação, ou
seja, a idéia de que livro fala. Aqui a leitura em voz alta é o que dá alma ao livro. Em relação ao
autor, no período helenístico, é instituída por ele uma relação mais estreita entre livro e leitor, o que
facilita o acesso ao texto, sobretudo quando ele for complexo ou estiver articulado em vários livros.
Como no caso de Políbio para facilitar o acesso do leitor a sua obra Histórias, escreveu uma
introdução para orientar a leitura.
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Além dessas inovações tanto em termos materiais, quanto nas práticas leitoras, devemos
destacar que houve o desenvolvimento de uma espécie de teoria da leitura, apresentada através de
manuais de retórica e tratados gramáticas. Essa inicial teoria da leitura se preocupa com
expressividade do ato da ler. Desta forma, cada leitura individual na presença de um grupo de
pessoas deve ser uma interpretação vocal e gestual que se esforça o máximo para expressão, as
intenções do autor, sem isso o leitor poderia cair no ridículo. Tal concepção teórica do ato de ler é
oriunda da arte oratória, por sua vez, ligada prática teatral. É a partir deste caminho teórico que os
gregos antigos criam uma metodologia hermenêutica que permite a decifração dos indícios
oferecidos pelo texto com intenção de encontrar a leitura correta.
2- A História da leitura na Roma Antiga
No que se refere a historia da leitura e do livro, Roma herdou do mundo grego antigo a
estrutura física em que ficavam os textos, o volumen (rolo) e certas praticas de leitura, isso ocorreu
a partir do II a. C. A leitura nesse período é uma prática exclusiva das classes elevadas e se faz de
maneira privada. Os livros gregos no formado em rolo, chegaram a Roma na forma de despojos de
guerra: em 168, por exemplo, Emilio Paulo traz os seus após a vitória obtida sobre mitridates. Esses
livros muitas vezes ficam nas casas dos conquistadores e passavam a formar bibliotecas
particulares, que eram freqüentadas por poucos membros dos homens cultos da sociedade.
A época imperial marca nova época das praticas leitoras, graças aos avanços da
alfabetização. Nesse momento o mundo Grego-Romano torna-se um espaço de grande circulação da
cultura escrita. Vários tipos de escrita são encontrados por toda parte e umas multiplicidades de
produtos escritos circulam pelas cidades: libelos, prospectos, em verso ou em prosa e diversos
outros tipos.
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Nesse cenário em que muitas pessoas sabem ler e que existe uma grande circulação de
produtos escritos, manifesta-se um crescente demanda de livro. Isso proporciona a criação de
bibliotecas públicas e no incremento das particulares, o surgimento de guias que auxiliam os
leitores em adquirir novos livros. E a criação de um novo tipo de livro, o codex, que era muito mais
adequado as necessidades desses novos leitores e das diferentes prática de leitura.
As bibliotecas públicas romanas não eram como as helênicas, reservadas a pequenos
círculos, mas deve-se pensar, preferencialmente, em “bibliotecas eruditas”, no sentido de serem
abertas a qualquer pessoa que as quisesse freqüentar, principalmente, por um publico de classe
média alta. Entretanto, o crescimento da construção de bibliotecas públicas estava ligado à vontade
do imperador com a finalidade de conservar as memórias históricas e de selecionar e codificar o
patrimônio literário e de selecionarem históricas (desempenhar também as funções de arquivos) e
de selecionar e codificar o patrimônio literário.
Encontra-se uma relação de poder entre o Império e o mundo dos livros nos atos de
seleção que determinavam à exclusão das obras que desagravam o poder imperial. Ao mesmo
tempo, a ampliação da necessidade pela leitura criou a diverso uso dos livros até o tipo uso dos
livros e biblioteca como símbolo de status social no qual seus proprietários não liam mais
desfrutavam da imagem de ser um leitor, dono de biblioteca. Desta forma, livros são criados para
orientar os leitores novatos, para não se perder no meio dos tantos livros da Roma antiga.
O surgimento de novos textos foi um dos motivos para o aumento da leitura. Como no
caso de Ovídio que resolveu escrever a sua terceira obra destinada exclusivamente para as
mulheres. Esse ato do escritor Ovídio representa que as mulheres começaram a se emancipar ao
ponto de entrar no mundo da palavra escrita. Diferente da Grécia Antiga em que a figura da leitora
se apresentava de forma esporádica, na Roma Imperial a imagem da leitora se apresenta fortemente.
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O aumento do ato da leitora na Roma antiga deve muito a invenção do codex, um tipo de
livro já com páginas que irá substituir o rolo a partir do século II d. C. Esse tipo de livro passou a
ser o preferido pelo escritores e leitores cristãos. Essa maior demanda da leitura vai desenhar uma
separação entre a necessidade de textos novos, entre estes, os textos cristãos e os mecanismos
tradicionais de produção de distribuição dos livros no formato de rolos. As técnicas de produção dos
rolos eram baseadas em trabalhos servis, o material era o papiro importando do Egito, fatores para
que tornasse o livro em rolo mais cara para ser produzido e conseqüentemente mais elitizado. Por
outro lado, a codex conquistou um numero maior de leitores de todos os setores sociais, devido a
vários fatores. O primeiro fator que destacamos o barateamento da produção, pois a escrita ocupava
os dois lados dos suportes e que geralmente usava-se como material o pergaminho, facilmente
produzidos em qualquer parte do mundo antigo. Além disso, a sua produção não necessitava de uma
manufatura especializada e cara como no volumen. Surgiram novos canais de distribuição das obras
e um tipo de leitura mais livre nos seus movimentos o que conquistou os leitores que necessitavam
de mais concentração.
3- Leitura na Idade Média
No ocidente latino do início da Idade Média a leitura do ócio literário comum na
antiguidade que ocorria em jardins e espaços públicos, foi substituída pelas leituras intimistas,
realizadas em Igreja, refeitórios, claustros, escolas religiosas e nas cortes quando geram textos
sagrados. Somente nos espaços religiosos como nos monastérios que se celebram a leitura, os livros
e as bibliotecas, geralmente através de poemas.
A outra grande transformação que se realizou na Europa da Alta Idade Média foi a
passagem da leitura em voz alta para a leitura silenciosa ou murmurada. Para isso contribuíram
diversos fatores. O primeiro era o fato de que os livros eram lidos, sobretudo para conhecer Deus e
para a salvação da alma, de forma que deviam ser compreendidos, repensados e memorizados. O
segundo fator era a função do livro se haviam transformado. Liam-se poucos textos ainda que se
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escrevesse muito, visto que a fadiga da transcrição era si mesma uma prece. Desta maneira, o livro
nem sempre era destinado à leitura, pois se revela como um instrumento da salvação, como bem
patrimonial e em suas formas mais elevadas, preciosas, monumentais, torna-se sinal do sagrado e do
mistério do sagrado.
Eram poucas pessoas da alta cultura que liam muito e eram também poucos os livros lidos
com exceção dos textos religiosos e hábitos de leitura dos monges nos mosteiros. A falta de prática
na leitura impedia um ágil e segura divisão das palavras e frases, conforme a exigência de uma
leitura em voz alta. Isso impunha uma leitura silenciosa e ou murmurada.
Porém, assim como houve no mundo antigo episódio de leitura silenciosa, não faltam na
Idade Média testemunhos da leitura em voz alta: leitura de textos litúrgicos ou de edificação era
praticada na igreja, nos refeitórios comunitários, e talvez até mesmo em práticas escolares.
No período entre o século XI e século XIV, surge uma nova fase da história da leitura.
Renascem as cidades e as escolas que se tornam os espaços dos livros. Ocorre o desenvolvimento
da alfabetização e assim se diversificam os usos dos livros e a escrita progride em todos os sentidos.
As praticas de escrita e de leitura, separadas desde o inicio da Idade Média, são aproximadas e uma
influencia a outra.
Aumento as práticas leitoras. Não se trata mais de simplesmente compreender a letra da
escrita: essa compreensão compõe o momento inicial, do qual é preciso passar ao significado do
texto para atingir a sentença (sententia), vista como doutrina em toda a profundidade. Os elementos
fundamentais da leitura da chamada escolástica universitária, o modelo de leitura que impregna
profundamente o escrito, esclarece o comentário e defunde sua autoridade.
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De modestos dispositivos de subdivisão do texto e dos textos tais como são encontrados na
alta idade média – atribuídos, alias menos a sinais específicos na Alta Idade Média – atributos, alias
menos a sinais específicos e mais a ornamentação e ao relevo cromático de iniciais, escritas
diferenciadas, decorações – passa-se a um verdadeiro sistema de técnicas auxiliares de leitura e de
consulta do livro destinadas a identificar rapidamente a passagem que se procura: rubricas, títulos
de capítulos, parágrafos, separação de texto e comercio, sumário, índice de concordância de termos,
índices e listas analíticas dispostas em ordem alfabéticas.
Ao mesmo tempo, o espaço dos livros sofre outras modificações. Nasce no século XIII,
com ordens mendicantes, o modelo de biblioteca destinada não mais ao acumulo e a conservação
dos livros, mas a leitura, assim como, o sistema bibliotecário que desenvolve novos métodos de
catalogação. Geralmente essas novas bibliotecas eram formadas por sala compridas, com um
corredor vazio no centro, sendo a sala ocupada, nas duas naves laterais, por filas paralelas de
bancos, nos quais os livros ficam presos por meio de correntes. Assim, a biblioteca sai solidão do
monastério ou do limitado espaço que lhes destinavam os bispos nas catedrais românicas, para se
tornar urbana e ampla. O silêncio também define esse tipo de biblioteca, pois o acesso ao livro deve
ser silencioso, assim como, silenciosa deve ser a procura de autores e de títulos então dispostos num
catálogo. Conseqüentemente, a leitura nessas bibliotecas deve ser silenciosa, feita somente com o
movimento dos olhos, realizadas individualmente ou em grupos.
Essa leitura silenciosa permite uma maior autonomia do leitor diante do controle da
sociedade, proporcionando a série de mudanças nas formas de pensar, de usar o livro, de criticar a
sociedade, de encarar o erotismo. A alfabetização da sociedade laica irá acrescentar novas práticas
leitoras ao modelo de leitura escolástica e universitária. Além disso, aumenta a produção de livros
em línguas vulgares (línguas locais diferentes da língua oficial – o latim).
Devemos destacar também que nesse período, existe um outro modelo de leitura, a leitura
da corte. Entre os nobre e príncipes os são quase sempre um objeto de entretenimento e de devoção,
mas sua função transcende a simples leitura. Os livros são considerados um tipo de ornamento, sinal
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de cortesia, de civilização, de bom gosto e vida refinada. E ao mesmo tempo, esses são enfeitados a
partir da necessidade de representar a riqueza e vida de luxo de seus proprietários, pois as
encardenações são feitas de belos tecidos e detalhes de ouro ou prata. Muitas vezes as bibliotecas da
aristocracia eram muito diferentes das bibliotecas religiosas, pelo os números de obras em língua
vulgar que enfatizam as batalhas e os amores e histórias quase fantásticas que vulgarizam muitos
textos famosos da tradição clássica. A partir dessas bibliotecas das corte, principalmente, nas cortes
latinas que irrompe o humanismo com seus livros clássicos da antiguidade Grega e Romana.
Módulo II. História da leitura a partir idade moderna: entre o isolamento,
práticas leitoras coletivas e política.
Nos estudos sobre história da leitora na idade moderna devemos destacar três aspectos: o
primeiro é a questão da revolução nas práticas leitoras desencadeadas pela invenção da impressa e
os processos de ampliação das praticas leitoras populares e desenvolvimento de uma leitura
solitária, feita por um individuo-leitor separado do mundo social.
A revolução técnica que afeta as pratica leitoras na época moderna, transformou os modos
de produção dos textos e reprodução dos textos. A partir dos meados do século XV, os caracteres
móveis e as prensa de impressão, a copia manuscrita não é o único recurso disponível para garantir
a multiplicação e circulação dos textos. Por baixar muito o custo de fabricação do livro, dividido
pela totalidade dos exemplares de uma mesma tiragem, por abreviar a duração de sua fabricação,
que era muito longa na elaboração de manuscritos. Essa mudança iniciou aproximadamente em
1450 a partir da invenção de Johann Gutenberg de uma prensa gráfica que provavelmente, tal
invenção foi inspirada pelas prensas de vinhos de sua região natal, cortada pelo rio Reno
(Alemanha) – que usava tipos móveis de metal.
Esse tipo de prática da impressão gráfica se espalhou pela Europa com a diáspora dos
impressores da região da Alemanha. Em 1500, cinqüenta anos depois da invenção de Guntenber,
existiam máquinas de impressão em mais 250 lugares que produziam, entre 1450 e 1500, cerca de
27 mil copias e 500 cópias por edição.
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Paralela à revolução das máquinas gráficas, constatamos, no inicio da Idade Moderna, uma
outra revolução da leitura oriunda da difusão da leitura silenciosa. Essa leitura silenciosa da era
moderna instaura uma nova relação com a escrita que permite que o leitor fique mais livre e
pratique as suas reflexões de forma completamente secreta e interior. A leitura silenciosa permite
utilizações diferenciadas de um mesmo livro que pode ser lido em voz alta para os outros, quando e
exigida alguma sociabilidade ou ritual e lido em silencio num escritório, biblioteca e quarto. O
desenvolvimento dessa leitura silenciosa esta completamente ligado com o processo de formação de
subjetividade moderna na qual cada individuo se vê com um ser singular e independente, o
contrário da um identidade medieval na qual as pessoas se identificavam com um ser que pertence a
uma coletividade, aldeia ou família.
Outro aspecto importante da história da leitura no período moderno, consiste nas leituras
feitas por pessoas e as práticas leitoras populares comuns trazem muita dificuldade para os
historiadores da leitura, mas também proporciona grandes descobertas sobre as ligações que o ato
da leitura tinha e tem com a vida cotidiana e sobre as mudanças que as práticas leitoras sofreram a
partir da Idade Moderna.
Foi através de registros do século XVI, encontrados nos papéis da inquisição, que Carlo
Ginzburg1 conseguiu informações sobre as leituras de Menocchio, um simples moleiro da cidade
de Friuli. Sendo acusado de heresia, este moleiro foi interrogado sobre o seu hábito de leitura. O
moleiro respondeu apresentando uma série de livros e suas interpretações sobre os mesmos.
Ginzburg, ao comparar os textos com as idéias de Menocchio, descobre que ele tinha lido muitas
obras que só eram encontradas nas bibliotecas da aristocracia. E, além disso, Menocchio transgrediu
as mensagens transmitidas conforme a ordem social ao desenvolver uma maneira singular de ler os
conteúdos de diferentes obras e ao construir uma visão completamente não-cristã do mundo, o que o
levou à inquisição.
1 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição.
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Robert Darnton2, em suas pesquisas sobre a França do século XVIII, descobriu registros das
leituras de Jean Ranson, um francês da classe média provinciana e leitor apaixonado das obras de
Rousseau, que escreveu uma série de cartas para o autor entre 1774 e 1785. Nas cartas, é claramente
demonstrado como o rousseauísmo foi absorvido no modo de vida daquele leitor. Rousseau recebeu
um fluxo de cartas de muitos leitores como Jean Ranson, principalmente após a publicação de La
nouvelle Héloïse. Esta foi, segundo Darnton, a primeira onda de correspondência de admiradores da
história da literatura. Essas correspondências revelam que muitos leitores tinham reações muito
parecidas com as de Jean Ranson em todas as partes da França. Porém, essas reações eram
compatíveis com aquela que o próprio Rousseau apresentou no prefácio de La nouvelle Héloïse. O
autor passou instruções de como se ler a novela, dando aos leitores papéis e estratégias para a
compreensão da obra. Essa nova maneira de ler tornou o livro o mais vendido do século XVIII e a
maior fonte da sensibilidade romântica.
Os dois casos apresentados nos mostram como, no período moderno, o ato da leitura de
pessoas comuns está profundamente relacionado com suas vidas cotidianas e com a elaboração de
visões de mundo originais e muitas vezes contrárias às interpretações defendidas pela Igreja
Católica, como no caso de Menocchio, ou pelo Antigo Regime, como nas idéias de Rousseau lidas
por Jean Ranson. Ou seja, o que caracterizava essas leituras, feitas por populares, era a diversidade
do uso dos textos e não apenas os livros que esses leitores não aristocratas possuíam, como afirmam
muitos estudos sobre a história do livro. Considero que as análises apenas quantitativas dos títulos
encontrados em inventários e catálogos, que procuram descobrir o que era lido pelas camadas
populares, não são suficientes para iluminar a questão.
A pesquisa sobre os diferentes usos e leituras dos mesmos textos por diferentes leitores -- e
principalmente por leitores de origem popular -- é um importante tema dentro dos estudos de Roger
Chartier3 sobre as práticas e as representações culturais. Ele constata como Carlo Ginzburg com a
2 DARNTON, Robert. História da leitura. In: BURKE, Perter (org). A escrita da história: novas perspectivas, p. 199-
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história de Menocchio, que muitas vezes os leitores populares são possuidores de livros destinados
às altas classes. Dessa maneira, Chartier analisa o caso um de grupo de sete trabalhadores, seis
comerciantes e um artesão, que foram interrogados sobre as suas leituras e mencionaram títulos que
leitores da aristocracia também liam: livros de devoção, vidas de santos e romances de cavalaria. A
descoberta dos romances de cavalaria nos depoimentos destes leitores populares nos permite,
segundo Chartier, reavaliar o tradicional diagnóstico feito sobre o público deste tipo de literatura,
centrado fundamentalmente na nobreza.
Além do aspecto não limitado das leituras populares, Roger Chartier nos chama atenção para
os gêneros editoriais, as comunidades de leitores e as modalidades da interpretação, elementos
fundamentais para caracterizar a diversidade do universo das leituras populares.
Entretanto, dentro desse campo de estudos do pesquisador francês, cabe destaque da questão
do papel social de duas modalidades de leitura: a silenciosa e a que é feita em voz alta4. No nosso
caso, importa compreender as implicações sociais do desenvolvimento dos hábitos da leitura
silenciosa e identificar como e porque práticas leitoras coletivas orais sofreram determinadas
mudanças a partir da idade moderna.
Entre os séculos XVI e XVIII, por ser mais difundido o ato da leitura, houve o surgimento e
desenvolvimento de novas práticas leitoras e, sem dúvida, a que mais se destacou foi a capacidade
de ler silenciosamente. Essa forma de ler é considera por historiadores da idade moderna um dos
principais elementos da evolução cultural e, em certa medida, política da Idade Moderna. Isso está
relacionado com todo o processo de individualização que marca as transformações da vida moderna
em direção a um modo de vida cada vez mais antropocêntrico e até laico. Pois o ato de ler em
silêncio protege o leitor dos controles de sua comunidade e dos controles de instituições,
principalmente a Igreja.
3 CHARTIER, Roger, Leituras e leitores “populares” da Renascença ao período Clássico. in: Guglielmo Cavallo; Roger
Chatier (Org.) História da leitura no mundo ocidental, v2, p 117.
4 Id., As práticas da escrita. In Roger Chatier (ORG). História da vida privada, v.3, p113.
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Antes de se transformar em hábito cada vez mais comum, na Idade Moderna, o ato de ler
silenciosamente era reservado aos monges copistas da idade média e a partir dos meados do século
XII se transformou em prática corrente nos meios universitários, em pouco mais de duzentos anos,
já atingia as aristocracias leigas.
Entretanto a leitura silenciosa tornou-se mais usual, quase exclusivamente, para os leitores já
familiarizados com cultura escrita e alfabetizados há bom tempo. Esses leitores, pertencentes à
aristocracia que conseguiam adquirir livros facilmente ao ponto de construir em bibliotecas
privadas. Muito diversa era a situação dos leitores das classes baixas que adquiriram mais
lentamente o domínio da leitura e que o livro era visto como um objeto incomum e até inédito. Para
esse segundo grupo de leitores, a leitura oralizada permaneceu viva por necessidade.
Todavia, mesmo entre a elite, as práticas antigas de leitura não foram completamente
anuladas. A leitura em voz alta entre um grupo de amigos, vizinhos ou até de companhias casuais
foram importantes formas de sociabilidade entre os XV e XVIII. Encontramos exemplos de tais
práticas em diversos relatos como os de Henri de Campion, um tenente no regimento da Normandia
entre 1635 e 1642, que carregava os livros em sua bagagem e dividia suas leituras com outros três
amigos do regimento.
Eram três homens com os quais eu passava minhas horas de folga. Após debater juntos os
temas que se apresentavam sem disputa amarga nem vontade de aparecer às custas dos
outros, um de nós lia alto um bom livro, cujos trechos mais belos examinávamos, para
aprender a bem viver e bem morrer, segundo a moral, que era nosso principal estudo.
Muitos tinham prazer em ouvir nossas conferências que lhes eram úteis, creio, pois nada
dizíamos que não conduzisse à virtude. Nunca mais encontrarei sociedade tão agradável e
inteligente: ela durou os sete anos que servi no regimento da Normandia. 5
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Tais tipos de sociedades também existiam nos meios urbanos, no período moderno, quando
intelectuais ou pessoas que praticavam a leitura privada e silenciosa, também procuravam fazer
usos sociais dos livros. Eles se reuniam para ler e ouvir leituras ou para conversar sobre livros.
Com certeza, tais sociedades de leitura foram as precursoras das academias de letras, de ciências e
sociedades científicas. Entretanto, tais praticas coletivas eram predominantes nos meios populares,
tanto no campo ou nos meios urbanos. Nesse setor social, a leitura em voz alta geralmente era feita
pelos poucos que sabiam ler, para ouvintes que não sabiam ou não liam com fluência. Os temas de
tais leituras eram variados, indo desde cartazes, livros de oração, romances de cavalaria e outros.
Em oficinas, praças ou até em auditórios populares, as pessoas ouviam e debatiam leituras.
2- Leitura na História contemporânea
No século XIX, após a Revolução Francesa, o espaço público começa a ser considerado
como nocivo à ordem da nova sociedade liberal burguesa que cria lógicas controladoras e
excludentes, principalmente, para dominar as camadas populares que auxiliaram a derrubada do
Antigo Regime. Na nova lógica, a intimidade da vida doméstica torna-se uma espécie de tirania,
prevalecendo sobre as formas públicas e coletivas de convivência. Isso atingiu as práticas leitoras
que passaram a ser objeto de vigilância e de expressão na vida burguesa. Ou seja, a leitura
individual no espaço privado, por leitores de textos que difundiam a moral burguesa foi incentivada
e valorizada, em detrimento dos hábitos populares de se reunir para ler ou contar histórias.
Esse vínculo entre a decadência da vida pública e a forma de leitura – individual silenciosa -
predominante nas cidades modernas explica porque, nos grandes centros urbanos da Europa, os
grupos sociais, controlados ou excluídos pela nova lógica da vida moderna, passaram a buscar
formas de resistência através do ato da leitura coletiva e em voz alta, na contramão da ideologia
individualista. Dessa forma, operários e mulheres formavam grupos de leitura, trocavam cartas,
5 CAMPION apud ibid., p. 149.
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liam e procuravam textos de todos os tipos que denunciassem a face controladora e excludente das
grandes cidades burguesas, ao mesmo tempo, que rejeitavam publicações de caráter moralista.
O crescimento da alfabetização em massa e o grande desenvolvimento da indústria editorial,
na Europa, possibilitaram o surgimento desse novo público leitor, composto de mulheres, crianças e
operários. Apesar dos lucros que se conseguiam com esse novo tipo de leitor, a elite sócio-cultural
considerou perigosa a disseminação da leitura nas camadas marginais e criou mecanismos para
disciplinar e desvalorizar as práticas leitoras populares, femininas e operárias. A formação de
conceitos, imagens e discursos do que é a leitura e o leitor e, a acima de tudo, a imposição do que as
pessoas deveriam ler ou não ler, conforme o grupo social ou o gênero, foram algumas das
estratégias usadas pelos grupos dominantes.
Na Alemanha entre o final do século XVIII e a segunda década do século XIX, muitas
mulheres modificaram completamente os hábitos de leitura, passando de uma leitura religiosa, feita
em voz alta em torno de um texto único, para leitura silenciosa e eclética de vários romances,
textos diversos, jornais e até obras filosóficas. As mudanças na escolha do tipo de leitura
provocaram também transformações nas maneiras de pensar e viver a realidade que as rodeava. No
início do século XIX, um número significativo de leitoras alemãs já não se interessava mais por
romances sentimentais importados da Inglaterra, tais como Pamela e Clarissa, de Richardson, e a
História da Demoiselle de Sternheim, escrita por Sophie von la Roche. A curiosidade por
acontecimentos atuais, ciência, inovações e invenções levaram muitas leitoras às obras de ampla
utilidade como a Enciclopédia.
O salto dado de uma leitura religiosa, passando por romances sentimentais e chegando à
leitura de artigos e romances sobre a atualidade, formou o pequeno caminho que muitas alemãs
encontraram para participar da vida social, cultural e política do inicio do século XIX. É nesse
momento que a leitura ganha o papel de uma verdadeira instituição social, pois, além da produção
de uma grande variedade de livros, houve o surgimento de muitas sociedades de leitura, gabinetes
de leitura e bibliotecas públicas. Todos essas comunidades de leitura constituíram-se como os
21
únicos espaços públicos que reuniam homens e mulheres numa comunidade de interesses,
preocupações e prazeres em comum. Nesses encontros, as mulheres eram respeitadas por suas
idéias ao ponto de serem sempre solicitadas nas discussões, fato quase impossível no cotidiano das
cidades.
A partir de 1815, porém, a burguesia alemã criou várias formas de dominar e desfazer esses
encontros de leitura, que permitiam muitas mulheres terem experiências públicas. Tais ações
repressivas foram feitas através do controle da redistribuição de livros, da censura e,
principalmente, da determinação em reduzir os tipos de leitura das mulheres aos romances
históricos sem referência ao presente, à literatura de grande tiragem e às revistas femininas, repletas
de modelos de vestidos, ensinamentos, conselhos e folhetins. Em outras palavras, a reação foi
estruturada no incentivo à leitura individual, cujos temas também abordam questões do mundo
privado. Por esse motivo, a produção de livros de aconselhamento moral, livros sobre bons
costumes e prendas domésticas dobraram a partir da década de 1820. A publicação periódica foi
outro meio usado para o mesmo fim. Surgiram milhares de revistas e jornais femininos que
mergulhavam as leitoras num mundo de vestidos, estórias de amores impossíveis e conselhos.
O mesmo tipo de ação repressiva foi feito para conter o perigoso avanço do hábito da leitura
na classe operária. Em Londres, por exemplo, a redução de tempo da jornada de trabalho, a
construção de várias bibliotecas públicas e os programas de alfabetização em massa possibilitaram
que muitos trabalhadores encontrassem na leitura o caminho para compreender e participar da vida
pública nas cidades industriais. Nesse caso, a seleção de livros moralizantes e de literatura de
entretenimento, para compor a maioria do acervo das bibliotecas públicas, e o incentivo à leitura
individual e doméstica, foram os procedimentos usados pela elite para direcionar e disciplinar a
leitura operária. Como conseqüência, o crescente interesse dos trabalhadores por textos sobre a
atualidade , e especialmente, o hábito de ler em voz alta e coletivamente notícias, jornais radicais e
folhetos socialistas sofreram repressões diretas e indiretas. O ideal da elite era configurar um
22
imaginário “sagrado” para o ato da ler, desvalorizando as leituras populares, incentivando mais a
leitura individual, cujos assuntos não provocassem o desejo de questionar a realidade.
As representações iconográficas compõem, em grande parte, o imaginário excludente da
leitura nas cidades. Determinadas imagens de leitores e leitoras, de tão repetidas, acabaram-se
identificadas, pelo senso comum, com a própria leitura. Pela quantidade de tipos de pinturas e
fotografias de leitores e leitoras, escolhidas para ficar na memória coletiva, podemos perceber qual
o conceito de leitura e de leitor que ficou estabelecido como padrão6.
Pinturas de mulheres lendo sozinhas em ambientes domésticos são as representações
iconográficas mais comuns a partir da metade do século XIX. Pintores como Matisse, Cézanne e
Renoir fizeram vários quadros com esse tema. Neles geralmente a leitora está sozinha em sua casa
demonstrando uma relação exclusivamente íntima com o livro. Vários pintores, conforme a sua
característica, procuraram utilizar recursos técnicos para melhor enfatizar o aspecto íntimo e
solitário das leituras femininas. Raramente as leitoras são pintadas fora de casa e coletivamente,
pois muitos grupos de leitura formados por mulheres não receberem nenhuma representação em
pintura. Sobre o predomínio dessas imagens, Martine Poulain faz a seguinte observação:
Às vezes, embora raramente, a leitura das mulheres pode ocorrer fora de suas
casas. Uma mulher lerá num jardim, que pode ser o seu, e neste caso prolongar seu
espaço privado (...). Mais raramente, ela lerá o jornal no que poderia ser um espaço
público, salão de chá ou café. Mais raramente ainda, ela praticará uma leitura claramente
funcional: como Mary Cassatt, que lê no Louvre algo que só pode ser um guia do
museu.7
6 POULAIN,Martine: Cenas de leitura na pintura, fotografia, no cartaz, de 1881 a 1989. In: -----. FRAISSE,
Emmannuel ; POMPOUGNAC, Jean-Claude (Org). Representação e imagens da leitura, p.52-92.
23
O leitor de jornal é pintado, ao contrário das leitoras, quase sempre em lugares públicos, no
meio da multidão, tomando conhecimento das notícias. Mas, por outro lado, raramente eles são
representados em meio a discussões ou comentando com outras pessoas o assunto lido, ou seja,
mesmo estando em espaços públicos, os leitores de jornais também praticam o hábito silencioso e
íntimo da leitura individual. É possível entender, então, que as pinturas com cenas de leitura não
foram feitas apenas para retratar a realidade, mas, principalmente, para eleger e estipular as formas
ideais de ler. Por isso, os vários tipos de práticas leitoras coletivas de trabalhadores urbanos,
mulheres e camponeses não são selecionadas como tema de pinturas, fotografias ou narrativas. A
separação entre ler e viver coletivamente ou entre arte e vida cotidiana estão por trás do processo de
alienação política que Richard Sennett chama de declínio do homem público8. A razão disciplinar
da sociedade burguesa produziu uma espécie de ditadura do eu na qual o espaço público e as
experiências coletivas foram gradativamente sendo esquecidos, em proveito da busca desenfreada
de satisfazer as necessidades e os desejos pessoais.
O hábito da leitura individual das informações veiculadas pela imprensa é reconhecido por
Walter Benjamin9 como a maior ameaça ao caráter coletivo e imaginativo das narrativas populares.
Pois nas narrativas tradicionais de artesãos e pescadores, os aspectos extraordinários e maravilhosos
são narrados sem impor ao leitor ou ao ouvinte a coerência lógica e as explicações das notícias. Esta
crítica de Benjamin ao consumo de informações sustenta-se numa concepção de leitura, onde se
destaca a produção de sentido em detrimento da transmissão de informações. Quando deplora o
desaparecimento do narrador épico, Benjamin denuncia a ação política da ordem capitalista como
responsável pela incapacidade moderna de se interpretar a cidade/texto, tanto quanto pela
incapacidade de compartilhar experiências no plano coletivo.
7 Ibid., p. 68.
8 SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade.
24
Enfim, pode-se considerar que a determinação racional da cidade moderna, na qual o espaço
privado limitava a vida de milhares de mulheres, e os projetos urbanísticos que empurravam os
setores populares para as periferias, foi enfrentada e transgredida através dos atos de leitura e
releitura, tanto do espaço físico quanto dos valores e discursos provocados por textos literários,
filosóficos, panfletários e outros. Tais atos de leitura e releitura foram realizados, como acabamos
de acompanhar, por esses grupos sociais que, sobrepondo-se às proibições e dificuldades, seguiram
lendo coletivamente.
3- Leitura, analfabetismo e exclusão social no Brasil.
Quando tentamos compreender essa questão do controle e da desvalorização das práticas
coletivas e populares de leitura no Brasil, encontramos uma outra configuração social, política e
econômica que nos impede de analisar essa questão somente através da problemática do declínio da
vida pública. Temos de ressaltar que houve, no Brasil do século XIX, todo um esforço de manter a
estrutura social escravocrata e arcaica, o que possibilitou um estranho fenômeno de cópia, apenas na
aparência, do processo de modernização que ocorria na Europa. Isso porque a participação das
camadas populares nos grandes momentos de transformação política e social foi quase nula. Em
outras palavras, a independência do Brasil, a abolição da escravatura e a proclamação da República
foram movimentos pensados e executados pela elite que queria apenas dar nova roupagem ao velho
sistema de interesses rurais.
O mesmo aconteceu com o plano da cultura letrada, pois a permanência da mentalidade
colonial, onde leitura era sinônimo de perigo e até de heresia, e a manutenção do sistema escravista,
até o final do século XIX, impossibilitaram o processo de alfabetização em massa. Ao mesmo
tempo, ler e escrever tornou-se, para as recentes elites urbanas um ótimo adorno moderno, não um
instrumento para construir novas relações com a realidade, mas sim, o meio de se fantasiar de
europeu ou de se distinguir da grande massa de analfabetos.
9 BENJAMIN, Walter. O narrado: Reflexões sobre a obra de Nikolai Lesskov. In: ______. Sobre arte, técnica,
25
Todo esse quadro estruturou o abismo, que permanece até os dias de hoje, entre a maioria da
população e a cultura letrada. A distância explica porque, por exemplo, o consumo e a produção
literária permaneceram quase exclusivamente nos limites da elite brasileira. Devemos destacar,
aqui, que tal setor social também procurou imitar o individualismo das práticas culturais da
burguesia européia, ou melhor, uniu o individualismo desta com o que Sérgio Buarque de Holanda10
chamou de personalismo, isto é, a necessidade que tem o homem brasileiro de afirmar-se indiferente
a qualquer coisa, principalmente, às ordens e leis, que sejam contrárias aos seus desejos, e de se
interessar apenas pelo que pode distingui-lo das demais pessoas.
Mas há outros traços por onde nossa intelectualidade ainda revela sua missão nitidamente
conservadora e senhorial. Um deles é a presunção (...) Outro é exatamente o voluntário alheamento ao
mundo circunstante, o caráter transcendente, inutilitário de muitas das suas expressões mais típicas.
Ainda aqui cumpre considerar também a tendência freqüente, posto que nem sempre manifesta, para
se enxergar no saber principalmente um instrumento capaz de elevar seu portador acima do comum
dos mortais. O móvel dos conhecimentos não é, no caso, tanto intelectual, mas antes social e visa
primeiramente ao enaltecimento a à dignificação daqueles que os cultivam.11
Seguindo esse raciocínio, o narcisismo da elite letrada brasileira também formou barreiras
para a democratização do acesso aos bens culturais letrados e para a criação verdadeira de
sociabilização através de práticas coletivas. O mais importante, para esse setor, não é a troca de
leituras e conhecimentos, mas a exibição de uma aparente erudição, com o objetivo exclusivo de se
distinguir das outras pessoas. Isso pode esclarecer o estranho prazer, que percebemos, em muitos
brasileiros ligados à alta cultura, de se ver cercado por uma população de baixo grau de instrução e
de pouco contato com a cultura letrada.
linguagem e política.p.27-69.
10 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
11 Ibid., p.164.
26
Sendo influenciada pela perspectiva européia, branca e masculina, a visão dos poucos letrados
sobre os grupos excluídos ou desvalorizados da vida social foi marcada por um forte desprezo pelas
práticas culturais desses grupos e principalmente por sua relação com a leitura. As práticas culturais
populares, realizadas por negros, índios e mestiços, foram rotuladas como primitivas e irracionais e
as práticas leitoras das poucas mulheres que liam, quando não eram proibidas, eram classificadas
como fúteis e de baixa qualidade. Sendo assim, as leituras femininas também foram marcadas pelas
estratégias disciplinadoras de reduzir o seu universo às histórias fantasiosas de amores impossíveis
e às obras de aconselhamento, com o objetivo de manter as mulheres presas à vida doméstica.
Quanto aos setores populares, pode-se dizer que, por causa da ausência da alfabetização em
massa e de todo o processo de exclusão, produzido pela corrida modernizadora, não ocorreu, como
no caso europeu, o uso de práticas leitoras coletivas como forma de resistência social. Além disso,
houve, na história brasileira, o desenvolvimento de estratégias e práticas repressivas que
patrulhavam o que era lido, falado, escrito e apresentado principalmente pelos setores populares
urbanos. No entanto, os setores populares sempre construíram formas coletivas de expressão
artística, cultural, religiosa e política, baseadas no contato direto, na troca de experiências, fora dos
padrões personalistas das elites.
Somente após as décadas de vinte e trinta do século XX, com o crescimento dos processos de
urbanização e o início da implantação da indústria e dos meios eletrônicos de comunicação, foi que
os setores populares urbanos passaram a entrar em contato com o universo de informações e
notícias, fundamentais para vida moderna, que antes só eram assecíveis através da leitura dos
jornais e revistas. Tal interação entre a massa popular e os meios eletrônicos aumentou com o
surgimento de novas emissoras e o barateamento dos aparelhos de rádio, a partir dos anos quarenta.
27
Entretanto, nesse processo, ocorreu a união de práticas e expressões populares com as técnicas
de transmissão radiofônica. A programação incluía ritmos folclóricos e ditos do povo, e, por isso,
generalizou-se a recepção coletiva dos programas de rádio em locais públicos ou nas poucas casas
de uma vizinhança que possuía rádios. Aí, as pessoas resgatavam os hábitos populares de se reunir
para ouvir notícias, leituras e principalmente histórias, e trocavam impressões, opiniões e
interpretações do que era ouvido. Resumidamente, podemos afirmar que o mesmo processo ocorreu
com a implantação da televisão a partir do final dos anos cinqüenta.
Como se viu, a união entre rádio, televisão e cultura popular é configurada na criação e
produção de muitos tipos de programas. Vários programas de rádio e TV tornam-se um hábito
popular, momento de troca de receitas, rezas e até de simpatias, tanto quanto de apresentação de
cantores populares e regionais.
Por outro lado, não podemos esquecer que essa cultura de massa, promovida pelos meios de
comunicação eletrônicos, também representa objetivos mercadológicos e políticos das elites. As
grandes redes de comunicação são propriedade de membros das tradicionais oligarquias brasileiras.
Sem dúvida, esse lado mercantil da mídia eletrônica busca promover valores individualistas e
consumistas e, em certa medida, práticas individuais de recepção, principalmente, após a
popularização da compra de aparelhos de rádio e de TV.
O conjunto desses aspectos, apresentados até aqui, forma um complexo quadro na atualidade
pós-moderna, no qual se percebe a permanência dos mecanismos de exclusão do acesso à alta
cultura e o domínio da mídia eletrônica na vida da maior parte da população brasileira. Ao olhar
precipitado ou ao olhar maniqueísta que classifica a cultura de massa como o grande mal da vida
cultural brasileira, esse problema só seria resolvido com a eliminação da cultura do rádio, da
televisão e da história em quadrinhos, acompanhada do reforço dos valores tradicionais da arte e da
literatura erudita. Ou seja, para os intelectuais e educadores não basta alfabetizar os analfabetos,
mas é preciso salvar todos os alfabetizados ou não, dessa cultura eletrônica alienante e vazia.
28
Silviano Santiago12 identifica essa postura radicalmente contrária à cultura de massa como um
preconceito que muitos pensadores modernistas -- como Antônio Candido, que, de certa maneira,
defendeu essas idéias -- compartilharam. Santiago argumenta que essa perspectiva preconceituosa
impediu que os defensores da alta cultura percebessem que os meios eletrônicos de comunicação
permitem, tanto aos analfabetos quanto às pessoas de qualquer grau de instrução, informar-se sobre
as notícias diárias e até ter contato com a ficção. Cabe-nos, então, formular outra compreensão do
que é ser alfabetizado e do que é ler, numa sociedade que não passou pelo processo de alfabetização
em massa, mas tem contato diário com informações, imagens e discursos de todos os tipos e de
todas as partes do mundo.
Trata-se, primeiro, de colocar a tônica na possibilidade de aprimoramento do ato da leitura . Esta deve
ser compreendida como uma atividade que transcende a experiência da escrita fonética. Deve-se
buscar, na sociedade de massa, a maneira de aprimorar a produção de sentido do espetáculo e/ou do
simulacro por parte de todo e qualquer cidadão. A produção de sentido deixa de ser feitos apenas por
grupos restritos e inegavelmente mais sofisticados. Por isso, não se espera um sentido único e
autoritário, dado por um grupo legitimador (a crítica, como é o caso tradicional). O sentido da
produção simbólica e/ou cultural é plural e inalcançável na sua totalidade. 13
A partir do reconhecimento da pluralidade das experiências de produção de sentidos,
proporcionada pela vida cultural contemporânea, pretendemos analisar a importância política das
práticas leitoras coletivas dos alunos curso comunitário de Vila Isabel. Pois lidamos, aqui, com a
quebra de todas as distinções entre alta cultura, cultura de massa e cultura popular, como uma ação
política de democratização do acesso aos bens culturais. Por isso, cuidamos, também, de aprimorar
a capacidade de produzir sentidos diante dos diferentes tipos de produtos culturais. Podemos dizer,
antecipadamente, que a leitura coletiva e oralizada de textos literários teve um papel fundamental
para divulgar os processos de produção de sentidos que influenciaram a mudança dos horizontes
interpretativos, deslocando-os de seus padrões habituais.
12 SANTIAGO, Silviano. Alfabetização, leitura e sociedade de massa. In: NOVAIS , Adauto(Org). Rede Imaginária:
Televisão e democracia, p 146-155.
29
TEXTO COMPLEMENTAR
Em palestra na Biblioteca de Alexandria, no Egito, o autor de "O Nome da Rosa"
explica por que a expansão da grande rede não ameaça a existência dos livros
Muito além da Internet14
por Umberto Eco em 18/12/03
Temos três tipos de memória. O primeiro é orgânico, que é a memória feita de carne e de sangue e
administrada pelo nosso cérebro. O segundo é mineral, e, nesse sentido, a humanidade conheceu
dois tipos de memória mineral: milênios atrás, foi essa a memória representada por tijolos de argila
e por obeliscos, muito conhecidos neste país, nos quais as pessoas entalhavam seus textos. Porém
esse segundo tipo é também a memória eletrônica dos computadores de hoje, que tem por base o
silício.
Conhecemos também outro tipo de memória, a memória vegetal, representada pelos primeiros
papiros, de novo muito conhecidos neste país, e posteriormente pelos livros, feitos de papel.
Permitam que eu desconsidere o fato de que, em certo momento, o velino dos primeiros códices foi
de origem orgânica e o fato de que o primeiro papel foi feito de trapos, e não de madeira. Permitam
que, no interesse da simplicidade, eu fale em memória vegetal para referir-me aos livros.
Este local foi, no passado, e será, no futuro, dedicado à conservação de livros; portanto é e será um
templo da memória vegetal. As bibliotecas, ao longo dos séculos, têm sido o meio mais importante
de conservar nosso saber coletivo. Foram e são ainda uma espécie de cérebro universal onde
podemos reaver o que esquecemos e o que ainda não sabemos.
13 Ibid., p151.
14 Texto retirado do site http://www.italiaoggi.com.br/not10_1203/ital_not20031218c.htm
30
Se me permitirem usar essa metáfora, uma biblioteca é a melhor imitação possível, por meios
humanos, de uma mente divina, onde o universo inteiro é visto e compreendido ao mesmo tempo.
Uma pessoa capaz de guardar em sua mente a informação suprida por uma grande biblioteca
emularia, de certo modo, com a mente de Deus. Em outras palavras, inventamos bibliotecas porque
sabemos que não possuímos poderes divinos, mas tentamos ao máximo imitá-los.
Construir, ou melhor, reconstruir hoje uma das mais célebres bibliotecas do mundo pode soar como
um desafio, uma provocação. Acontece, não raro, que em artigos de jornais ou em ensaios
universitários alguns autores, diante da nova era do computador e da internet, se refiram à possível
"morte dos livros". Porém, se os livros estiverem em via de desaparecer, como ocorreu com os
obeliscos ou com os tijolos de argila das civilizações antigas, não será esse um bom motivo para
abolir as bibliotecas. Ao contrário, devem sobreviver como museus que guardam as descobertas do
passado, assim como guardamos a Pedra de Rosetta [bloco de basalto negro, com inscrições em
egípcio e grego, descoberto pelos soldados de Napoleão, em 1799, a 56 km de Alexandria e que se
tornaria fundamental para a compreensão da civilização egípcia] num museu porque já não estamos
acostumados a entalhar nossos documentos em superfícies minerais.
Mas o meu elogio às bibliotecas será um pouco mais otimista. Pertenço àqueles que ainda acreditam
que livros impressos têm um futuro e que todos os receios "à propos" de seu desaparecimento são
apenas os exemplos derradeiro de outros medos ou de terrores milenaristas em torno do fim de
alguma coisa, inclusive do mundo.
Em muitas entrevistas, fui obrigado a responder perguntas como: "Os novos meios eletrônicos
tornarão os livros obsoletos? Será que a internet tornará a literatura obsoleta? A civilização
hipertextual eliminará a própria idéia de autoria?". Como podemos ver, se tivermos uma mente
normal e bem equilibrada, essas são perguntas diferentes e, levando em conta o tom apreensivo em
que são formuladas, podemos pensar que o entrevistador se sentiria reconfortado ao respondermos:
"Não, fique tranquilo, está tudo bem". Engano.
31
Se dissermos a essas pessoas que os livros, a literatura e a autoria não vão desaparecer, elas se
mostrarão desesperadas. Mas então, onde está o furo de reportagem? Publicar a notícia de que um
vencedor do Prêmio Nobel morreu é notícia; dizer que ele está vivo e passa bem não interessa a
ninguém, salvo a ele mesmo, suponho.
O que pretendo fazer, hoje, é tentar desemaranhar uma mixórdia de receios entrelaçados acerca de
problemas diversos. Clarear nossas idéias acerca desses problemas diversos pode também nos
ajudar a compreender melhor o que, em geral, entendemos por livro, texto, literatura, interpretação
e assim por diante. Desse modo, veremos como, a partir de uma pergunta tola, se podem produzir
muitas respostas sábias, e essa provavelmente é a função cultural de entrevistas ingênuas.
O produto da máquina não é mais linear, é uma explosão de fogos de artifício semióticos; seu
modelo é menos uma linha reta do que uma verdadeira galáxia
Comecemos com uma história egípcia, muito embora contada por um grego. Segundo Platão, em
"Fedro", quando Hermes -ou Thot, o suposto inventor da escrita- apresentou sua invenção para o
faraó Thamus, este louvou tal técnica inaudita, que haveria de permitir aos seres humanos
recordarem aquilo que, de outro modo, esqueceriam. Mas Thamus não ficou inteiramente satisfeito.
"Meu habilidoso Thot", disse ele, "a memória é um dom importante que se deve manter vivo
mediante um exercício contínuo. Graças a sua invenção, as pessoas não serão mais obrigadas a
exercitar a memória. Lembrarão coisas não em razão de um esforço interior, mas apenas em virtude
de um expediente exterior".
32
Platão contra a escrita
Pode compreender a preocupação de Thamus. Escrever, como qualquer nova invenção tecnológica,
entorpeceria a faculdade humana que almejava substituir e ampliar. Escrever era perigoso porque
reduzia o poder da mente ao fornecer aos seres humanos uma alma petrificada, uma caricatura da
mente, uma memória mineral.
O texto de Platão é irônico, está claro. Platão escrevia sua tese contra a escrita. Mas também fingia
que seu discurso era proferido por Sócrates, que não escrevia (como não publicava, sucumbiu no
curso da batalha acadêmica, cujo lema é: publicar ou morrer). Hoje, ninguém compartilha as
preocupações de Thamus por duas razões muito simples. Primeiramente, sabemos que livros não
são um meio de fazer outra pessoa pensar em nosso lugar; ao contrário, são máquinas que suscitam
outros pensamentos. Só depois da invenção da escrita, foi possível escrever uma obra-prima de
memória espontânea como "Em Busca do Tempo Perdido".
Em segundo lugar, se de vez em quando as pessoas precisavam exercitar a memória para lembrar
coisas, após a invenção da escrita tiveram também de exercitar a memória para lembrar dos livros.
Livros desafiam e aprimoram a memória; não a entorpecem. No entanto o faraó dava testemunho de
um temor eterno: o temor de que uma nova proeza tecnológica pudesse matar algo que
consideramos precioso e frutífero.
Usei o verbo matar de propósito porque, cerca de 14 séculos mais tarde, Victor Hugo, em seu
romance "Nossa Senhora de Paris", narrou a história de um padre, Claude Frollo, que olhava
tristonho para as torres da sua catedral. A história de "Nossa Senhora de Paris" se passa no século
15, após a invenção da imprensa. Antes disso, os manuscritos estavam reservados a uma elite
restrita de pessoas alfabetizadas e, para ensinar às massas as histórias da Bíblia, a vida de Cristo e
dos santos, os princípios morais, até mesmo os feitos da história nacional ou as noções mais
elementares de geografia e de ciências naturais (a natureza de povos desconhecidos e as virtudes de
pedras e de ervas), só se podia contar com as imagens de uma catedral. Uma catedral medieval era
uma espécie de programa de tevê permanente e imutável, destinado a transmitir às pessoas tudo o
33
que era indispensável para a sua vida cotidiana, assim como para a sua salvação eterna. Agora,
porém, Frollo tem sobre a sua mesa um livro impresso e ele sussurra: "Ceci tuera cela" -isto vai
matar aquilo ou, em outras palavras, o livro vai matar a catedral, o alfabeto vai matar as imagens. O
livro vai desviar as pessoas de seus valores mais importantes, incentivar informação supérflua, a
livre interpretação das Escrituras sagradas, uma curiosidade insana. Na década de 1960, Marshall
McLuhan escreveu seu livro "A Galáxia de Gutemberg", no qual declarava que a maneira linear de
pensar, respaldada pela invenção da imprensa, estava em via de ser substituída por um modo mais
global de percepção e de compreensão, por meio de imagens de TV ou de outros tipos de aparelho
eletrônico. Se não McLuhan, certamente muitos de seus leitores apontaram o dedo para a tela da TV
e depois para o livro impresso e disseram: "Isto vai matar aquilo". Se ainda estivesse entre nós,
hoje, McLuhan seria o primeiro a escrever algo como "Gutemberg contra-ataca". Sem dúvida, um
computador é um instrumento por meio do qual é possível produzir e editar imagens, sem dúvida as
instruções são fornecidas por ícones; mas também não há dúvida de que o computador se tornou,
acima de tudo, um instrumento alfabético. Em sua tela, correm palavras e linhas escritas e, para usar
um computador, é preciso saber ler e escrever.
Galáxias de Gutemberg
Há diferenças entre a primeira galáxia de Gutemberg e a segunda? Muitas. Primeiro, só os
processadores de texto arqueológicos do início da década de 80 ofereciam um tipo de comunicação
escrita linear. Hoje, os computadores não são mais lineares, pois apresentam uma estrutura
hipertextual. Curiosamente, o computador nasceu como uma máquina de Turing, capaz de dar um
passo de cada vez, e, de fato, nas profundezas da máquina, a linguagem ainda opera dessa maneira,
por uma lógica binária, de zero-um. Porém o produto da máquina não é mais linear: é uma explosão
de fogos de artifício semióticos. Seu modelo é menos uma linha reta do que uma verdadeira galáxia,
onde todos podem captar nexos inesperados entre estrelas diferentes para formar uma nova imagem
celestial em qualquer novo ponto de navegação. Contudo é exatamente nesse ponto que a nossa
34
atividade de desemaranhar deve ter início, porque, por estrutura hipertextual, entendemos em geral
dois fenômenos muito distintos. Primeiro, há o texto hipertextual. Num livro tradicional, deve-se ler
da esquerda para a direita (ou da direita para a esquerda, segundo culturas diversas) de um modo
linear. Pode-se obviamente saltar páginas, pode-se, depois de chegar à página 300, voltar para
verificar ou reler algo na página 10, mas isso implica trabalho físico. Em contraste, um texto
hipertextual é uma rede multidimensional ou um labirinto em que cada ponto ou nó pode ser
potencialmente ligado a qualquer outro nó. Em segundo lugar, há o hipertexto sistêmico. A "www"
é a Grande Mãe de Todos os Hipertextos, uma biblioteca mundial onde podemos ou poderemos, em
breve, pegar todos os livros que quisermos. A internet é o sistema geral de todos os hipertextos
existentes. Tal diferença entre texto e sistema é imensamente importante e devemos voltar a ela. Por
ora, deixem-me dar cabo da pergunta mais ingênua que se faz frequentemente, na qual essa
diferença ainda não está tão nítida. Mas é ao responder essa primeira pergunta que poderemos
esclarecer nossa questão posterior. A pergunta ingênua é: "Os disquetes hipertextuais, a internet ou
os sistemas de multimídia tornaram os livros obsoletos?". Com essa pergunta, chegamos ao capítulo
final na nossa história isto-vai-matar-aquilo. Mas mesmo essa pergunta é confusa, pois pode ser
formulada de duas maneiras: (a) os livros desaparecerão como objetos físicos? e (b) os livros
desaparecerão como objetos virtuais? Permitam-me responder à primeira pergunta. Mesmo após a
invenção da imprensa, os livros nunca foram os únicos instrumentos para adquirir informação.
Havia também pinturas, imagens populares impressas, lições orais e assim por diante.
Simplesmente, os livros provaram ser o instrumento mais adequado para transmitir informação.
Existem dois tipos de livros: os que são para ler e os que são para consultar. No tocante aos livros
para ler, a maneira normal de ler é a que eu chamaria de "maneira de história de detetive". Começase
da página um, onde o autor conta que um crime foi cometido, seguem-se todas as trilhas do
processo investigativo até o fim e se descobre, afinal, que o culpado era o mordomo. Fim do livro e
fim da experiência de leitura. Notem que o mesmo ocorre até quando se lê, digamos, um tratado de
filosofia. O autor quer que abramos o livro na primeira página, sigamos a série de questões que
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propõe e vejamos como alcança determinadas conclusões finais. Sem dúvida, os estudiosos podem
reler tal livro saltando de uma página para outra, na tentativa de isolar um possível nexo entre uma
afirmação no primeiro capítulo e uma outra, no último. Podem também resolver isolar, digamos,
cada ocorrência da palavra "idéia" numa determinada obra, saltando, desse modo, centenas de
páginas a fim de concentrar a atenção apenas em trechos que tratem dessa noção. Porém essas são
maneiras de ler que um leigo consideraria antinaturais. Além disso, há os livros de consulta, como
manuais e enciclopédias. As enciclopédias são concebidas com o propósito de serem consultadas e
jamais lidas da primeira à última página. Uma pessoa que lesse a "Enciclopédia Britânica" toda
noite antes de dormir, da primeira à última página, seria um personagem cômico. Em geral, pega-se
um volume de uma enciclopédia para saber ou lembrar quando Napoleão morreu ou qual é a
fórmula química do ácido sulfúrico. Os estudiosos usam a enciclopédia de um modo mais
sofisticado.
Napoleão e Kant
Por exemplo, se quisesse saber se era possível ou não Napoleão encontrar-se com Kant, eu teria de
pegar o volume K e o volume N da minha enciclopédia: descubro que Napoleão nasceu em 1769 e
morreu em 1821, Kant nasceu em 1724 e morreu em 1804, quando Napoleão já era imperador.
Portanto não seria impossível que os dois se encontrassem. Para confirmá-lo, eu provavelmente
teria de consultar uma biografia de Kant ou uma de Napoleão, mas em uma curta biografia de
Napoleão, que encontrou tantas pessoas ao longo da vida, um possível encontro com Kant pode ser
relegado, ao passo que, numa biografia de Kant, um encontro com Napoleão seria registrado. Em
resumo, tenho de folhear muitos livros em muitas prateleiras de minha biblioteca; tenho de tomar
notas a fim de, mais tarde, comparar os dados que coligi. Tudo isso me vai custar um árduo esforço
físico.
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De outro lado, no entanto, com o hipertexto, posso navegar por toda a rede-ciclopédia. Posso ligar
um fato registrado no início a uma série de fatos disseminados ao longo de todo o texto; posso
comparar o início com o fim; posso solicitar uma lista de todas palavras que começam com a letra
A; posso pedir todos os trechos em que o nome de Napoleão esteja ligado ao de Kant; posso
comparar as datas de seus nascimentos e de suas mortes -em resumo, posso fazer meu trabalho em
poucos segundos ou minutos.
Os hipertextos, sem dúvida, tornarão obsoletos os manuais e as enciclopédias. Ontem, era possível
ter uma enciclopédia inteira em CD-ROM; hoje, é possível ter a enciclopédia ligada em linha, com
a vantagem de que isso permite o cruzamento de referências e a recuperação não-linear de
informação. Todos os CDs e mais o computador ocuparão um quinto do espaço ocupado por uma
enciclopédia impressa.
Uma enciclopédia impressa não pode ser facilmente transportada, como ocorre com um CD-ROM,
e não pode ser facilmente atualizada. As prateleiras hoje ocupadas em minha casa e nas bibliotecas
públicas por metros e metros de enciclopédias poderão ser eliminadas num futuro próximo e não
haverá razão para lamentar o seu desaparecimento. Lembremos que, para muita gente, uma
enciclopédia de muitos volumes é um sonho impossível, não, ou não só, por causa do preço dos
volumes, mas em razão do preço da parede onde os volumes são dispostos em prateleiras.
Se formos náufragos numa ilha deserta, onde não temos a opção de ligar um computador na
tomada, um livro ainda é um instrumento de muita valia
Pessoalmente, tendo começado minha atividade acadêmica como um medievalista, eu gostaria de
ter em casa os 221 volumes da "Patrologia Latina", de Migne. Isso é muito caro, mas eu poderia
pagar. O que não poderia pagar era um outro apartamento onde depositar os 221 grossos volumes,
sem ser obrigado a me livrar de pelo menos outros 500 livros de tamanho normal. Porém pode um
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disco hipertextual ou a "www" substituir os livros que são feitos para ler? De novo temos de decidir
se a pergunta se refere a livros como objetos físicos ou virtuais. De novo, tratemos primeiro do
problema físico. Boas notícias: os livros continuarão indispensáveis, não só para a literatura, mas
também para quaisquer circunstâncias em que é preciso ler com cuidado, não só com o intuito de
receber informações, mas também de especular e refletir sobre elas. Ler uma tela de computador
não é o mesmo que ler um livro. Pensem no processo de aprendizagem de um novo programa de
computador. Em geral, o programa pode apresentar na tela todas as instruções necessárias. Mas, em
geral, os usuários que querem aprender a usar o programa ou imprimem as instruções e as lêem
como num livro ou compram um manual impresso. É possível imaginar um programa visual que
explique muito bem como imprimir e encadernar um livro, mas para obter instruções sobre como
escrever ou como usar um programa de computador precisamos de um manual impresso.
Nova forma de letramento
Após passar 12 horas diante de uma mesa de computador, meus olhos parecem duas bolas de tênis e
sinto a necessidade de me recostar confortavelmente numa poltrona e ler um jornal ou talvez um
bom poema. Portanto creio que os computadores estão difundindo uma nova forma de letramento,
mas são incapazes de satisfazer todas as necessidades intelectuais que estimulam. Por favor,
recordem que as antigas civilizações hebraica e árabe tinham por base um livro, e isso não foi
independente da circunstância de terem sido civilizações nômades. Os antigos egípcios podiam
entalhar seus registros em obeliscos de pedra; Moisés e Maomé não podiam. Quando se pretende
atravessar o mar Vermelho ou ir da península Arábica até a Espanha, um rolo de pergaminho é um
instrumento mais prático para registrar e transportar a Bíblia ou o Corão do que um obelisco. Por
isso essas duas civilizações alicerçadas em um livro privilegiaram a escrita em detrimento das
imagens. Mas os livros também têm outra vantagem em relação aos computadores. Mesmo quando
impressos no moderno papel ácido que dura apenas 70 anos, aproximadamente, os livros são mais
duráveis do que o suporte magnético. Além disso, não são afetados por escassez de energia ou por
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blecautes e são mais resistentes a impactos. Até agora, os livros representam o modo mais barato,
flexível e prático de transportar informação a um custo muito baixo. A comunicação por
computador viaja à nossa frente; os livros viajam conosco e na nossa velocidade. Se somos
náufragos numa ilha deserta, onde não temos a opção de ligar um computador na tomada, um livro
ainda é um instrumento de muita valia. Mesmo que nosso computador tenha bateria de energia
solar, não é fácil ler a tela deitado numa rede. Os livros são ainda os melhores companheiros para
um naufrágio ou para os dias seguintes. Livros pertencem a essa classe de instrumentos, que, uma
vez inventados, não foram aprimorados porque já estão bons o bastante, como o martelo, a faca, a
colher ou a tesoura.
Fim das livrarias
Duas invenções novas, porém, estão prestes a ser exploradas industrialmente. Uma é a impressão
por encomenda: após vasculhar os catálogos de várias bibliotecas ou editoras, um leitor pode
selecionar o livro desejado, o operador apertará um botão e a máquina imprimirá e encadernará um
único exemplar usando a fonte que o leitor desejar. Sem dúvida, isso vai modificar todo o mercado
editorial. Provavelmente, eliminará as livrarias, mas não os livros, e não eliminará as bibliotecas, o
único local onde os livros podem ser encontrados para que o leitor os examine e os reimprima. Em
termos mais simples: todos os livros serão confeccionados segundo o desejo do comprador, como
acontecia com os antigos manuscritos. A segunda invenção é o livro eletrônico, em que,
introduzindo um microdisquete na lombada do livro ou ligando-o à internet, podemos ter um livro
estampado à nossa frente. Mesmo nesse caso, contudo, ainda teremos um livro, embora tão
diferente de nossos livros atuais quanto estes diferem dos antigos manuscritos em pergaminho e
quanto o primeiro fólio de Shakespeare de 1623 difere da mais recente edição da editora Penguin.
Porém, até agora, os livros eletrônicos não se mostraram comercialmente viáveis como seus
inventores esperavam. Disseram-me que certos hackers, que cresceram diante de computadores e
não têm o costume de folhear livros, leram afinal grandes obras-primas da literatura na forma de
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livros eletrônicos, mas creio que tal fenômeno permanece muito restrito. Em geral, as pessoas
parecem preferir o modo tradicional de ler um poema ou um romance em papel impresso.
Provavelmente, livros eletrônicos se revelarão úteis para consultar informações, como ocorre com
dicionários ou documentos específicos. Provavelmente ajudarão estudantes obrigados a levar
consigo dez livros ou mais quando vão à escola, mas não substituirão outros tipos de livro, que
gostamos de ler na cama, antes de dormir, por exemplo. De fato, há numerosas criações
tecnológicas que não tornaram obsoletas as anteriores. Carros correm mais do que bicicletas, mas
não tornaram obsoletas as bicicletas, e nenhum aprimoramento tecnológico pode tornar uma
bicicleta melhor do que foi antes. A idéia de que uma nova tecnologia abole uma tecnologia anterior
é, com frequência, demasiado simplista. Após a invenção da fotografia, os pintores não mais se
sentiram obrigados a servir de artífices cuja tarefa era reproduzir a realidade, mas isso não significa
que a invenção de Daguerre apenas estimulou a pintura abstrata. Há toda uma tradição na pintura
moderna que não poderia ter existido sem os modelos fotográficos: pensem, por exemplo, no hiperrealismo.
Aqui, a realidade é vista pelo olho do pintor através da lente fotográfica. Isso significa
que, na história da cultura, nunca houve um caso em que uma coisa simplesmente tenha matado
uma outra coisa. Em vez disso, uma nova invenção sempre alterou profundamente uma outra, mais
antiga. Para concluir essa questão da impertinência da idéia do desaparecimento físico dos livros,
digamos que às vezes esse temor não se refere apenas a livros, mas ao material impresso em geral.
Infelizmente, se porventura alguém teve a esperança de que os computadores e sobretudo os
processadores de texto contribuiriam para salvar árvores, foi otimismo ingênuo. Ao contrário, os
computadores fomentam a produção de material impresso. O computador cria novas modalidades
de produção e difusão de documentos impressos. Para reler um texto e corrigi-lo, se não for apenas
uma breve carta, é preciso imprimir, depois reler, em seguida corrigir no computador e reimprimilo.
Não creio que alguém possa escrever um texto de centenas de páginas e corrigi-lo sem
reimprimi-lo várias vezes.
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Nexo hipertextual
Hoje, existe uma nova poética hipertextual segundo a qual mesmo um livro feito para ler, mesmo
um poema, pode ser convertido em hipertexto. Nesse ponto, estamos passando para a pergunta
número dois, pois o problema não é mais -ou não é somente- físico, mas concerne à própria
natureza da atividade criativa, do processo da leitura, e, para desemaranhar essa mixórdia de
perguntas, temos, primeiro, de decidir o que entendemos por nexo hipertextual.
Observem que, se a questão dissesse respeito à possibilidade de infinitas ou indefinidas
interpretações da parte do leitor, teria muito pouco a ver com o problema em discussão. Teria a ver,
isso sim, com a poética de um Joyce, por exemplo, que entendia seu livro "Finnegans Wake" como
um texto que poderia ser lido por um leitor ideal acometido por uma insônia ideal. Essa questão
afeta os limites da interpretação, da leitura desconstrutiva e da sobreinterpretação, a que dediquei
outros escritos. Não: o que está em consideração no momento são casos em que a infinidade -ou
pelo menos a abundância indefinida- de interpretações se deve não só à iniciativa do leitor, mas
também à mobilidade física do próprio texto, que é produzido exatamente com o propósito de ser
reescrito. A fim de compreender como os textos desse tipo podem operar, temos de decidir se o
universo textual que estamos discutindo é limitado e finito ou limitado, mas virtualmente infinito,
ou infinito, mas limitado, ou ilimitado e infinito.
Primeiramente, devemos traçar uma distinção entre sistemas e textos. Um sistema, por exemplo, um
sistema linguístico, é a totalidade das possibilidades apresentadas por uma dada língua natural. Um
conjunto finito de regras gramaticais permite ao falante produzir um número infinito de frases, e
toda unidade linguística pode ser interpretada nos termos de outras unidades linguísticas ou
semióticas -uma palavra por uma definição, um evento por um exemplo, um animal ou uma flor por
uma imagem e assim por diante.
Tomemos um dicionário enciclopédico, por exemplo. Ele pode definir um cão como um mamífero,
e então temos de ir à entrada "mamífero" e, se lá os mamíferos são definidos como animais, temos
de procurar a entrada "animal" e assim sucessivamente. Ao mesmo tempo, as características dos
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cães podem ser exemplificadas por imagens de cães de vários tipos; caso se diga que certo tipo de
cão vive na Lapônia, temos de ir à entrada sobre a Lapônia para saber onde fica e assim
sucessivamente. O sistema é finito, e uma enciclopédia é fisicamente limitada, mas virtualmente
ilimitada, no sentido de podermos circunavegar dentro dela, em espiral, "ad infinitum".
Sob esse aspecto, sem dúvida, todos os livros imagináveis estão compreendidos em um bom
dicionário e em uma boa gramática. Se estivermos aptos a usar bem um dicionário de inglês,
poderemos escrever "Hamlet", e é por mero acaso que outra pessoa o fez antes de nós. Entreguemos
um mesmo sistema textual a Shakespeare e a um aluno do ensino fundamental e ambos terão as
mesmas chances de produzir "Romeu e Julieta”.
Gramáticas, dicionários e enciclopédias são sistemas: ao usá-los, podemos produzir todos os textos
que quisermos. Mas um texto propriamente dito não é um sistema lingüístico ou enciclopédico. Um
texto dado reduz as possibilidades infinitas ou indefinidas de um sistema para criar um universo
fechado. Se pronuncio a frase "nesta manhã, comi no desjejum...", por exemplo, o dicionário me
permite listar muitas unidades possíveis, contanto que todas sejam orgânicas. Mas, se eu produzo
meu texto de forma definida e pronuncio "nesta manhã, comi no desjejum pão e manteiga", excluí o
queijo, o caviar, o pastrami e as maçãs. Um texto castra as possibilidades infinitas de um sistema.
"As Mil e uma Noites" podem ser interpretadas de muitas, muitas maneiras, mas a história se passa
no Oriente Médio, e não na Itália, e relata, digamos, as façanhas de Ali Babá ou de Xerazade, e não
se refere a um capitão determinado a capturar uma baleia branca nem a um poeta toscano em visita
ao inferno, ao purgatório e ao paraíso.
Tomemos um conto de fadas, como "Chapeuzinho Vermelho". O texto parte de um conjunto de
personagens e situações -uma menina, uma avó, um lobo, uma floresta- e, por meio de uma série
finita de passos, chega a um desfecho. Sem dúvida, podemos ler o conto como uma alegoria e
atribuir diferentes significados morais aos fatos e às ações dos personagens, mas não podemos
transformar "Chapeuzinho Vermelho" em "Cinderela". "Finnegans Wake" é, sem dúvida, aberto a
muitas interpretações, mas é certo que nunca nos dará uma demonstração do teorema de Fermat ou
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uma bibliografia completa de Woody Allen. Isso parece banal, mas o equívoco radical de muitos
desconstrucionistas foi crer que podemos fazer o que bem entendermos com um texto. Isso é
clamorosamente falso. Agora suponham que um texto finito e limitado está organizado de forma
hipertextual por muitos nexos que ligam determinadas palavras a outras. Num dicionário ou numa
enciclopédia, a palavra "lobo" está potencialmente ligada a toda palavra que faça parte da sua
possível definição ou descrição (lobo está ligado a animal, a mamífero, a feroz, a pernas etc.). Em
"Chapeuzinho Vermelho", o lobo pode estar ligado apenas às seções textuais em que ele se
manifesta ou em que é explicitamente evocado. A série de nexos possíveis é finita e limitada. Como
podem as estratégias hipertextuais ser usadas para "abrir" um texto limitado e finito?
Commedia dell'arte
A primeira possibilidade é tornar o texto fisicamente ilimitado, no sentido de poder uma história ser
enriquecida pelas contribuições sucessivas de autores diversos e, num duplo sentido, digamos, de
forma bidimensional ou tridimensional. Entendo por isso que em "Chapeuzinho Vermelho", por
exemplo, o primeiro autor propõe uma situação inicial (a menina entra na floresta) e colaboradores
diversos podem, em seguida, desenvolver a história, um após o outro, por exemplo, ao fazer a
menina encontrar Ali Babá, em lugar do lobo, ao fazer ambos entrarem num castelo encantado,
defrontar-se com um crocodilo mágico e assim por diante, de sorte que a história pode prosseguir
anos a fio. Mas o texto também pode ser infinito, no sentido de poderem muitos autores fazer
muitas opções diversas, a cada disjunção narrativa, por exemplo, quando a menina entra na floresta.
Para um determinado autor, a menina pode encontrar Pinóquio; para outro, ela pode ser
transformada num cisne ou entrar nas pirâmides e descobrir o tesouro do filho de Tutancâmon. Isso
hoje é possível, e podemos encontrar na internet alguns exemplos interessantes de tais jogos
literários. Nesse ponto, pode-se levantar a questão da sobrevivência da própria noção de autoria e de
obra de arte, como um conjunto orgânico. E eu quero simplesmente informar à minha platéia que
isso já ocorreu no passado, sem perturbar nem a autoria nem os conjuntos orgânicos. O primeiro
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exemplo é o da comedia dell'arte italiana, em que, a partir de um "canovacio", ou seja, uma sinopse
histórica, cada apresentação diferia das demais, conforme a disposição e a imaginação dos atores,
de sorte que não podemos identificar uma obra única, escrita por um autor único, intitulada
"Arlecchino Servo di Due Padroni", e podemos apenas registrar uma série ininterrupta de
apresentações, em sua maioria perdidas para sempre e, sem dúvida, diferentes umas das outras.
Ausência de autoria Outro exemplo seria uma sessão de jazz. Podemos crer que houve, outrora, uma
execução superior de "Basin Street Blues", embora só tenha sobrevivido uma execução gravada
posteriormente, mas sabemos que isso é falso. Houve tantas "Basin Street Blues" quantas foram
suas execuções, e, no futuro, haverá muitas outras, sobre as quais ainda não sabemos, tão logo dois
ou mais músicos se encontrem outra vez e experimentem sua versão pessoal e inventiva do tema
original. O que quero dizer é que já estamos acostumados à idéia da ausência da autoria na arte
popular coletiva, em que cada participante acrescenta alguma coisa, com experiências de história
intermináveis, à semelhança do que ocorre no jazz. Tais maneiras de implementar a criatividade
livre são bem-vindas e fazem parte do tecido cultural da sociedade.
Porém há uma diferença entre implementar a atividade de produzir textos infinitos e ilimitados e a
existência de textos já produzidos, que podem, talvez, ser interpretados de infinitas maneiras, mas
que são fisicamente limitados. No interior da nossa cultura contemporânea, aceitamos a avaliamos
segundo diversos critérios tanto uma nova execução da "Quinta Sinfonia" de Beethoven como uma
nova jam session do tema de "Basin Street".
Nesse sentido, não vejo como o fascinante jogo de produzir histórias coletivas e infinitas por meio
da internet possa nos privar da literatura autoral e da arte em geral. A rigor, marchamos rumo a uma
sociedade mais liberada, em que a criatividade livre vai coexistir com a interpretação de textos já
escritos. Eu gosto disso. Mas não podemos dizer que substituímos uma coisa antiga por uma nova.
Temos as duas.
Zapear a tevê é outra atividade que nada tem a ver com assistir a um filme, no sentido tradicional.
Esse expediente hipertextual permite que inventemos novos textos que nada têm a ver com a nossa
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capacidade de interpretar textos preexistentes. Tentei desesperadamente encontrar um exemplo de
situação textual ilimitada e finita, mas não consegui. De fato, se temos à disposição um número
infinito de elementos, por que nos limitarmos à produção de um universo finito?
É uma questão teológica, uma espécie de esporte cósmico em que alguém -ou Alguém- poderia
implementar todo e qualquer desempenho possível, mas prescreve a si mesmo uma regra, ou seja,
limita, e engendra um universo pequeno e muito simples. Permitam-me, porém, examinar outra
possibilidade que à primeira vista promete um número infinito de possibilidades com um número
finito de elementos, como um sistema semiótico, mas na realidade oferece apenas uma ilusão de
liberdade e de criatividade.
Um hipertexto pode dar a ilusão de abrir mesmo um texto fechado: uma história de detetive pode
ser estruturada de tal modo que seus leitores podem selecionar sua própria solução, decidir no fim
se o culpado será o mordomo, o bispo, o detetive, o narrador, o autor ou o leitor. Assim, eles podem
montar sua própria história pessoal. Tal idéia não é nova. Antes da invenção dos computadores,
poetas e narradores sonhavam com um texto totalmente aberto, que os leitores pudessem recompor
infinitamente, de várias maneiras. Tal era a idéia de "Le Livre", exaltada por Mallarmé. Raymond
Queneau também inventou um algoritmo combinatório mediante o qual era possível compor, a
partir de um conjunto finito de versos, milhões de poemas.
Antes da invenção dos computadores, poetas e narradores sonhavam com um texto totalmente
aberto, que os leitores pudessem recompor infinitamente
O encanto da literatura trágica reside em que sentimos que seus heróis poderiam ter escapado de
seu destino, mas não o conseguem em razão de sua fraqueza, de seu orgulho, de sua cegueira No
início da década de 1960, Max Saporta escreveu e publicou um romance cujas páginas poderiam ser
deslocadas para compor histórias diferentes, e Nanni Balestrini deu a um computador uma lista
desconexa de versos que a máquina combinava de maneiras diferentes para compor poemas
diferentes. Muitos músicos contemporâneos produziram partituras cuja manipulação permite
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compor diversas execuções musicais. Todos esses textos fisicamente móveis dão uma impressão de
liberdade absoluta para o leitor, mas é só uma impressão, uma ilusão de liberdade. O mecanismo
que permite a alguém produzir um texto infinito com número finito de elementos existe há milênios
e é o alfabeto. Ao usar um alfabeto com um número limitado de letras, podem-se produzir bilhões
de textos, e é exatamente isso o que tem sido feito desde Homero até hoje. Em contraste, um textoestímulo
que nos oferece, não letras ou palavras, mas sequências predeterminadas de palavras ou de
páginas, não nos dá a liberdade de inventar nenhuma coisa que desejarmos. Somos livres apenas
para deslocar blocos textuais, em um número muito elevado de maneiras. Um móbile de Calder é
fascinante não porque produz um número infinito de movimentos possíveis, mas porque nele
admiramos a regra férrea imposta pelo artista, uma vez que o móbile só se movimenta das maneiras
que Calder desejava.
Chapeuzinho come o lobo
Na última fronteira da textualidade livre, pode haver um texto que começa como um texto fechado,
digamos, "Chapeuzinho Vermelho" ou "As Mil e uma Noites", e que eu, o leitor, posso alterar
conforme minhas inclinações, elaborando dessa forma um segundo texto, que já não será mais o
original e cujo autor sou eu mesmo, embora a afirmação da minha autoria seja uma arma contra o
conceito de uma autoria definida. A internet está aberta a tais experiências, e a maioria delas pode
ser bela e compensadora. Nada nos proíbe de escrever uma história em que Chapeuzinho Vermelho
devora o lobo. Nada nos proíbe de unir duas histórias diferentes numa espécie de colcha de retalhos
narrativa. Mas isso nada tem a ver com a verdadeira função e com o encanto profundo dos livros.
Um livro nos oferece um texto que, ao mesmo tempo em que está aberto a múltiplas interpretações,
nos diz algo que não pode ser modificado. Suponhamos que estejamos lendo "Guerra e Paz", de
Tolstói: desejamos ardentemente que Natacha não aceite a corte do detestável canalha Anatóli;
desejamos ardentemente que essa pessoa maravilhosa que é o príncipe Andriei não morra e que ele
e Natacha vivam juntos para sempre. Se tivéssemos "Guerra e Paz" num CD-ROM interativo e
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hipertextual, poderíamos reescrever nossa própria história segundo o nosso desejo; poderíamos
inventar inumeráveis "Guerras e Pazes", em que Pierre Besuchov consegue matar Napoleão ou,
conforme as tendências da pessoa, Napoleão consegue uma vitória completa contra o general
Kutuzóv. Que liberdade, que emocionante! Quaisquer Bouvard ou Pécuchet poderiam se tornar um
Flaubert! Infelizmente, com um livro já escrito, cujo destino está determinado por uma decisão
autoral e repressiva, não podemos fazê-lo. Somos obrigados a aceitar o destino e compreender que
somos incapazes de alterar a fortuna. Um romance hipertextual e interativo nos permite praticar a
liberdade e a criatividade, e espero que essa atividade inventiva venha a ser implementada nas
escolas do futuro. Mas o romance "Guerra e Paz", já escrito em caráter definitivo, não nos põe
frente a frente com as possibilidades infinitas da nossa imaginação, mas sim com as leis severas que
governam a vida e a morte. De modo semelhante, em "Os Miseráveis" Victor Hugo nos oferece
uma descrição maravilhosa da batalha de Waterloo. A Waterloo de Hugo é o oposto da de Stendhal.
Em "A Cartuxa de Parma", Stendhal vê a batalha pelos olhos do seu herói, que observa de dentro do
evento e não compreende sua complexidade. Hugo, ao contrário, descreve a batalha do ponto de
vista de Deus e a acompanha em todos os detalhes, dominando todo o cenário com a sua perspectiva
narrativa. Hugo não só sabe o que aconteceu como também o que poderia ter acontecido e de fato
não aconteceu. Sabe que, se Napoleão estivesse ciente de que, além do monte Saint Jean, havia um
penhasco, os couraceiros do general Milhaud não teriam sucumbido aos pés do Exército inglês, mas
suas informações na ocasião eram vagas e falhas. Hugo sabe que, se o pastor que guiou o general
Von Bulow tivesse sugerido um caminho diferente, o Exército prussiano não teria chegado a tempo
de causar a derrota dos franceses.
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Para salvar Napoleão
De fato, num jogo de RPG, uma pessoa poderia reescrever Waterloo de sorte que Grouchy chegasse
com seus soldados para salvar Napoleão. Mas a beleza trágica da Waterloo de Hugo reside em que
os leitores sentem que as coisas se passam de forma independente de seus desejos. O encanto da
literatura trágica reside em que sentimos que seus heróis poderiam ter escapado de seu destino, mas
não o conseguem em razão de sua fraqueza, de seu orgulho, de sua cegueira. Além disso, Hugo nos
diz: "Tamanha vertigem, tamanho engano, tamanha ruína, tamanha queda, que assombrou a história
inteira, será algo sem uma causa? Não... O desaparecimento desse grande homem foi necessário
para a vinda do novo século. Alguém, a quem ninguém pode fazer objeções, cuidou do evento ...
Deus omitiu-se, Dieu a passé".
Isso é o que todo grande livro nos diz, que Deus se omitiu, e Ele se omitiu para o crente e para o
cético. Há livros que não podemos reescrever porque sua função é nos instruir acerca da
necessidade e, só quando respeitados tal como são, podem eles nos fornecer tal sabedoria. Sua lição
repressiva é indispensável para alcançarmos uma condição mais elevada de liberdade intelectual e
moral.
Espero e desejo que a Bibliotheca Alexandrina continue a guardar esse tipo de livro, para oferecer a
novos leitores a experiência insubstituível de lê-los. Vida longa a este templo da memória vegetal.
Umberto Eco é romancista e e semiólogo italiano, autor de, entre outros livros, "A Ilha do Dia
Anterior" e "O Pêndulo de Foucault", ambos pela editora Record. O texto acima foi publicado
originalmente no jornal egípcio "Al-Ahram".
Tradução de Rubens Figueiredo.
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